quinta-feira, 19 de março de 2009

Poema matemático


Um Quociente apaixonou-se

Um dia,

Doidamente,

Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável

E viu-a, do Ápice à Base...

Uma Figura Ímpar;

Olhos rombóides, boca trapezóide,

Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua

uma vida

Paralela à dela.

Até que se encontraram

No Infinito.

"Quem és tu?" indagou ele

Com ânsia radical.

"Sou a soma do quadrado dos catetos.

Mas pode chamar-me Hipotenusa."

E ao falarem descobriram que eram

O que, em aritmética, corresponde

A almas irmãs:

Primos-entre-si.

E assim se amaram

Ao quadrado da velocidade da luz.

Numa sexta potenciação

Traçando

Ao sabor do momento

E da paixão

Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.

Escandalizaram os ortodoxos

das fórmulas euclidianas

E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas

e pitagóricas.

E, enfim, resolveram casar,

Constituir um lar.

Mais do que um lar.

Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos

O Poliedro e a Bissectriz.

E fizeram planos, equações e

diagramas para o futuro

Sonhando com uma felicidade

Integral

E diferencial.

E casaram-se e tiveram

uma secante e três cones

Muito engraçadinhos.

E foram felizes

Até aquele dia

Em que tudo, afinal,

Vira monotonia.

Foi então que surgiu

O Máximo Divisor Comum...

Frequentador de Círculos Concêntricos.

Viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,

Uma Grandeza Absoluta,

E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu

Que com ela não formava mais Um Todo.

Uma Unidade.

Era o Triângulo,

Tão chamado amoroso.

Desse problema ela era a fracção

Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu

A Relatividade.

E tudo o que era espúrio passou a ser

Moralidade.

Como aliás, em qualquer

Sociedade.

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